10.2.07

O menino morto*

Pensei bastante se eu deveria comentar o caso do menino arrastado pelos bandidos no Rio de Janeiro. Na verdade, o que eu tenho a registrar é que um episódio desse naipe desperta o que há de pior nas pessoas, ou seja, sua capacidade de dizer asneiras.

Vejam este trecho de um texto que extraí do Blog do Noblat (não vou dar link pra lá; quem quiser ler esta merda na íntegra vai ter de procurá-la):

"Na hora em que Jesus Cristo morreu, as trevas se abateram sobre Jerusalém. O dia virou noite. Ontem, as trevas se abateram sobre o Rio de Janeiro, sobre esta cidade outrora tão luminosa. As mesmas trevas que Deus enviou quando sofreu a morte de Seu filho. Agora, foram as trevas de Sua dor e decepção com o Homem."

Não dá, né? Primeiro porque, se Deus existisse mesmo, o garoto só teria sido arrastado (e, pelo que entendi, praticamente desintegrado) sobre o asfalto se ele, Deus, desse sinal verde. Segundo, porque a autora do texto amarrou o estilo do lado de fora do carro e o arrastou até a morte.

Também teve o caso do blogueiro de ultradireita que culpou a esquerda pelo crime, supostamente porque nós somos bonzinhos com bandidos; e o do Paulo Coelho, que foi mais abrangente e culpou todo mundo, e ainda citou John Donne (que, aliás, ele grafou Donner, talvez pensando no Hans): "Não me perguntem por quem os sinos dobram: eles dobram por ti".

Bem, eu não me sinto culpado por nada. E quero deixar alguns pontos para reflexão:

  • Os bandidos não abordaram o carro das vítimas pensando em arrastar o moleque pelas ruas; o que aconteceu, claro está, foi um tremendo azar — o que não justifica não terem parado o carro para, pelo menos, soltar o corpo. Essa indiferença deles com a situação é chocante, porque mostra um grau de falta de noção não visto nem nos jovens brutais da ficção, como em A Laranja Mecânica, livro que, no fundo, defende a tese de que enquanto somos muito jovens somos capazes de fazer qualquer coisa;

  • Este crime mostrou como mesmo um simples assalto, planejado para não deixar vítimas e render pouco mais que uns trocos para os piolhos, pode descambar para algo mais violento — os defensores da chamada "tolerância zero" ganharam um novo argumento;

  • Os assassinos estão mais ou menos na idade dos calouros de faculdade aos quais eu, no meu trabalho, dedico álbuns e mais álbuns de fotos, com todo mundo feliz, sorridente, branquinho e loirinho;

  • Ainda sobre a idade dos piolhos, pelo que entendi há até cinco envolvidos diretos no crime, e apenas um deles é menor, o que me faz querer entender o porquê de o caso ter "reacendido" a discussão sobre maioridade penal;

  • Grotescas as imagens dos PMs cariocas praticamente torturando os suspeitos diante das câmeras de TV e fotográficas. Pelo que sempre leio por aí, dá pra estimar que ao menos metade da PM do Rio é composta por bandidos, os quais, direta ou indiretamente, ajudam a criar tipinhos cruéis como esses aí;

  • Os assassinos não são monstros nem bárbaros. São humanos, e são um sinal dos tempos, do mesmo modo que os tornados são um sinal do aquecimento global;

  • Por fim, confesso que, apesar de tudo isso que escrevi, sinto uma enorme vontade de dizer que esses caras podiam, a título de exemplo, ser executados (após um devido processo legal, e não à la Saddam), e eu não sei se ficaria incomodado com o sangue a molhar a mão do estado.

    Acho que não.

    * Texto atualizado em 11/02

  • 2 Comentários:

    Anonymous Vida em Transe disse...

    Parabéns pelo blog...
    Pelo texto...
    Pela reflexão...
    Pela revolta...
    Divido com vc!

    13/2/07 11:50  
    Anonymous Thais Rice disse...

    Muito bom... enfim, um post com foco no que interessa na barbárie.
    bjão

    13/2/07 17:28  

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