24.7.08

Extensão do domínio da amargura

De modo mais geral, estamos todos submetidos ao envelhecimento e à morte. Essa noção de envelhecimento e morte é insuportável ao indivíduo humano; em nossas civilizações, ela se desenvolve soberana e incondicional, ela ocupa progressivamente o campo da consciência, ela não permite a nada mais subsistir. Assim, pouco a pouco, se estabelece a certeza da limitação do mundo. Mesmo o desejo desaparece; não resta nada além da amargura, do ciúme e do medo. Sobretudo permanece a amargura. Nenhuma civilização, nenhuma época foi capaz de incutir nos sujeitos tal quantidade de amargura. Desse ponto de vista, vivemos um momento sem precedente. Se fosse o caso de resumir o estado mental contemporâneo numa palavra, sem dúvida alguma seria essa que eu escolheria: a amargura.

E dito está.

Liberdade de expressão

Entro em férias em dois dias. Tentarei escrever mais aqui.

17.7.08

Snif

A noite trouxe um inexplicável cheiro de plástico queimado.

5.6.08

Marta do CEU

Este blog tem candidato a prefeito de São Paulo. Aliás, a prefeita. Vai de Marta Suplicy. Como irá, aliás, para qualquer coisa que ela se candidate.

Mas prometo não falar muito disso. Ninguém suporta, né?

Indyota

Assisti ao novo "Indiana Jones" agora há pouco. Continua sendo inacreditável como o Steven Spielberg ainda vive (e bem) de nos convidar para participar de seu mundo meio michaeljacksoniano de fantasias e medos infantis, do tipo extraterrestres (sim, tem hominhos cabeçudos no filme, num mix de "ET" e "Contatos Imediatos"), formigas comedoras de gente, maniqueísmo barato (aquele lance de Bem contra o Mal, sabe?) e cenas de ação que, de tão impossíveis na vida real, acabando parecendo coisa de... criança? Não: de idiota. Inclusive dá um certo sono de falar no assunto. Mas fica o primeiro conselho cultural dessa volta do blog: não perca seu tempo com esse filme.

Aliás, não vá ao cinema nunca mais. Se é pra ouvir gente conversando e comendo, prefira um McDonald's.

Lewinsky

A grande dúvida do mundo não é de onde viemos/quem somos/para onde vamos. Não é, também, se há vida após a morte e, principalmente, em havendo, que faremos nós com tanto tempo livre. Tampouco é saber se a inflação vai voltar porque estamos comendo mais arroz. Ou se o Fluminense vai ganhar da LDU.

Nesse momento, a dúvida é: será que de manhã a empregada vai notar o cheiro e as manchas na toalha que eu deixei no chão do banheiro? E se notar, o que ela vai pensar de mim?

Nem esperem resposta, porque não vou perguntar.

Revém

Após longa pausa, resolvi voltar a escrever no blog.

Ai...

28.1.08

Um grito na noite

Aqui perto tinha um homem que morava na calçada e que de vez em quando resolvia gritar na madrugada. Ele ficava na minha rua, num trecho com um longo muro, encostado ao qual ele fez o seu mundinho de latas, papéis e papelões, uns plásticos, merda, mijo e restos de comida (arroz, principalmente). Minha rua tem uma descidona e depois uma subidona (levando em conta a posição do meu prédio), e ele ficava no começo dessa subidona. E de vez em quando ele resolvia gritar no meio da madrugada, sempre aquela retórica de desgraçado: "Seu filho da puta, vai tomar no cu, eu vou isso, eu vou aquilo", e devido aos cerca de 400 metros de distância, e ao vento, e ao atrito do ar (etc. etc.), os gritos chegavam meio apagados, como se o homem urrasse preso na boca de um inferno. Então houve uma noite em que saí de carro pra comprar cigarro ou outra bobagem qualquer, era bem tarde, e estava pegando fogo onde ele ficava. Toda a lixarada dele ardia. Eram chamas altas, seria o caso de ligar pros bombeiros, mas eu não fiz nada (imagino que alguém tenha feito). No dia seguinte estavam lá apenas manchas pretas no muro e umas coisas queimadas, vá saber o quê, tudo quando queima fica igual, latas, papéis e papelões, plásticos, merda, mijo, comida. Mas eu saberia se o homem tivesse queimado junto. Não tinha. E não pensei mais nisso - até que, dois dias atrás, passei na rua de cima e notei um novo monte de dejetos vagamente organizados junto a uma garagem, daquelas que têm portão maciço, de madeira, talvez de uma casa à espera de inquilinos. Passei rápido e não reparei direito, porque há tanta coisa pra fazer, não é mesmo? e é claro que eu não tenho tempo pra observar detalhes da vida alheia, ainda que públicos. Mas não faz nem 15 minutos que eu ouvi as mesmas gentilezas, "Filho da puta, eu vou isso, eu vou aquilo", e era agora como se a voz tivesse deslizado da boca à garganta de um inferno. Pois então continua sendo verdade que tem um homem que mora na calçada e que de vez em quando resolve gritar na madrugada. Ele, como tudo, só ficou um pouquinho mais distante. Mas ainda é dele uma parte das palavras desse mundo.

Nem isso

Você tem a certeza de que o domingo está marcado pelo tédio e má vontade quando, no final da noite, pensa em bater uma punheta, e se dá conta de que ela vai ser a coisa mais emocionante das últimas 24 horas. Mas aí o que bate, mesmo, é uma preguiiiiiiiça...

25.1.08

900 mph

Com o tempo a gente aprende que, numa turbulência frontal, aquela do avião balançando de cima para baixo e vice-versa, quase sempre chega um momento em que ele parece ter dado um salto à frente e, de repente, estar voando numa área de atrito zero com a atmosfera. Ele fica mais solto. Eu sinto isso claramente. E acontece muito, quase como se fora parte obrigatória de todos os planos de vôo. Mas o importante é que eu já sei que, após esse curto instante de flutuação num bolsão de suavidade, virá um tranco ainda maior. O avião sempre joga mais depois de uma tênue calmaria a 31 mil pés. É o que tem ficado em mim das viagens que fiz ultimamente. Fora a sensação algo perturbadora de acordar com o telefone no meio da madrugada e pensar "Mas como conseguiram me achar aqui?", sendo "aqui", no caso, lá - em outro país, de onde já voltei há dias, mas onde parece que uma parte de mim ainda sente e pensa. A gente perde a ligação com o espaço. Resta o tempo. Se você é um dos privilegiados que conseguem dormir num avião, pode fantasiar que pegou no sono no Brasil e acordou num outro Brasil, com outra língua e pessoas diferentes - mas não muito, porque as fronteiras humanas borraram-se. E você desce do avião no seu Brasil 2, e faz o que tem de fazer como se estivesse num cenário de teatro ou filme. Muito bem montado, sem dúvida, mas ainda assim um cenário. E depois vai de novo para um lugar meio mágico, chamado aeroporto, onde pousa e decola esse dormitório caro e promíscuo chamado avião, dentro do qual você consegue pregar os olhos e apagar-se. E então o cenário muda. Mas isso é só contigo, que dormiu e acordou, e entendeu tudo. Comigo, não. A localização exata da madrugada ainda me confunde.

18.1.08

Leaving Detroit

Amanhã (na real, já é hoje, embora eu esteja três horas pra trás) termina meu primeiro contato com minha terra natal, the United States of America, the greatest nation on Earth nas palavras de Mitt Romney, John McCain e, pensando bem, quase todos os outros candidatos republicanos à Casa Branca, se não forem todos mesmo. Claro, Detroit não é os Estados Unidos nem os Estados Unidos se resumem a isso aqui, então não tenho muito o que falar sobre o país em si. Apenas que a impressão que me fica é a de um lugar meio triste, com pelo menos uma pessoa em cada três mal conseguindo andar de tão gorda, a TV dominada por anúncios de remédio pra levantar o pau e baixar colesterol, e de escritórios de advocacia que prometem, no fundo, proteger you from your government (do imposto de renda, principalmente), e por programas sobre presidiários e psicopatas (você não vai acreditar, mas Charles Manson ainda é assunto aqui), e por noticiários de crime tratados como eventos pop (o mais recente teve como vítima uma fuzileira naval, ou marine, que, grávida, parece ter sido morta por outro marine); fora isso, há uma sensação geral de preguiça e decadência - pelo menos nessa cidade, morta e cheia de vazios para onde quer que se olhe. Claro, se eu tivesse vindo cobrir o Salão de Los Angeles, e não o de Detroit, talvez minha impressão fosse outra. Mas olha, nevou, em pelo menos dois dias - e eu, que nunca tinha visto neve caindo do céu (já tinha visto no chão), achei um saco. Pelo menos as pessoas são simpáticas, te perguntam "tudo bem?" das mais diferentes maneiras, e aqui é um lugar de pretos que falam cantando e riem muito e alto, e isso deve significar alguma coisa boa. Bye, America the Beautiful.

5.1.08

Viagem

Estou na praia até daqui uns dias e, ao fim desses dias, embarco prozestadzunidus a trabalho. Acho que não vou postar nada ao longo desse período, tá?

Mas, antes de ir:

Mulher que fica apaixonadinha por homem de quinta, e que leva baile dele, e que engorda tipos 7 kg por causa disso, merece o quê?

Merece que o próprio cara que deu-lhe o baile olhe pra ela, hoje, e pense: "Ainda bem que já comi, porque se fosse agora eu não comeria".