23.2.17

arrumador imprevisto

guardava as palavras dela arrumadas por aromas: amêndoas, mar ao entardecer, orquídeas, sândalo...

18.2.17

uma vereda salpicada de dourado

viu os passos dela ali, inspirou a luz perfumada de azul e sentiu a íntima alegria de um recém ressuscitado.

11.2.17

ao sábado à noite

era ao sábado à noite que lhe sentia mais funda a ausência. e no relógio dos seus dias, todas as noites eram de sábado.

9.2.17

uma espiral desenhada a palavras

colecionava as palavras que lhe queria dizer. não dizia: nunca eram suficientes para tudo o que lhe queria dizer.

1.2.17

enlaces e remates

um dia, fiaram as respetivas almas, entrelaçaram-nas e esqueceram o ponto onde ficou o remate. oh, tinham que ficar ligados para sempre, assim.

28.1.17

porto de abrigo

um dia encontrou uma enseada onde a água era tão límpida que se podia ver o pulsar das veias finíssimas da areia. ancorou. estaria ali para a abrigar, quando ela chegasse. e aguardou.

24.1.17

a voz associada às palavras, enquanto são escritas

foi quando, enquanto eram desenhadas na folha em branco, todas as palavras passaram a soar à voz dela, que não lhe restaram interrogações. nem uma.

23.1.17

palavras em forma de mancha de aguarela

para ele as palavras espalharam-se no papel como se fossem diluídas por água e absorvidas pela superfície branca até que se lhe tornou impossível distinguir entre as orlas de ternura saudade amor.